Parece bastante preciso dizer que estamos favorecendo a nós mesmos quando nos pomos a fazer algo divertido. Nos alegrarmos, mostram os cientistas, é essencial para uma boa vida. Calcularam fluxo de hormônios, enzimas, etc que produzimos em estado de alegria; então o mundo aceita que seja saudável. Só por isso. E nada mais do que isso.
O único problema de o Ministério da Saúde ser o único suporte para o incentivo à necessidade de diversão na vida, é que a conclusão mais comum das pessoas é: “se você se sentir bem, faça!” (psicologia em 90 minutos)
Se levantarmos a primeira pergunta “então o que garante que sua diversão não ultrapasse limites, se o único limite é você mesmo?”, as tentativas em explicar o quanto esse “sentir-se bem” deve dominar suas ações beira o autismo.
Agora é o momento no qual eu me explico na escolha do termo “autismo”, que não é por preconceito, de modo que eu não atraia a ira de quem lê sem entender o que estaria explícito depois. Por definição, o autismo é, segundo o ABC da Saúde, “uma desordem na qual uma criança jovem não pode desenvolver relações sociais normais, se comporta de modo compulsivo e ritualista, e geralmente não desenvolve inteligência normal.
O autismo é uma patologia diferente do retardo mental ou da lesão cerebral, embora algumas crianças com autismo também tenham essas doenças.” E sobre o próprio autista, a mesma fonte tem: “Uma criança autista prefere estar só, não forma relações pessoais íntimas, não abraça, evita contato de olho, resiste às mudanças, é excessivamente presa a objetos familiares e repete continuamente certos atos e rituais.” Outras fontes médicas irão reforçar esses mesmos pontos, caso se interesse por pesquisar.
Ou seja, temos uma pessoa compulsiva, que faz as mesmas coisas que lhe são familiar, que se fecha em seu mundo particular, cujas normas são só suas e são as únicas que ela entende. As tentativas de se explicar o que é esse “agir pelo que lhe faz se sentir bem” defendem que as pessoas devem cultivar sempre suas próprias normas, conforme seu gosto e conforme o que lhe aprouver. São autistas.
Alguém explique a esse povo que isso é autismo!
O que essas pessoas não percebem é que criamos problemas tanto de ordem ética, quanto de ordem epistemológica quando afirmamos que nos divertimos meramente pelos nossos gostos ou pelas nossas normas.
Se fosse simplesmente por nosso gosto que tomássemos nossas decisões, nunca levaríamos em consideração que estamos lidando com um outro, o outro seria só mais um obstáculo ou uma ferramenta para atendermos nossos impulsos. Tanto pior, em uma súbita mudança de gosto (pois é assim que acontece), poderíamos nos descobrir não mais desejosos daquele objeto e então querermos um outro objeto e aí, mais uma vez, usar a outra pessoa como ferramenta ou vê-la como obstáculo para esse sucesso. E assim sucessivamente, em uma troca de estatuto do outro, entre ferramenta e obstáculo, ou até como o objeto desejado, então descartado. Tudo a nosso gosto.