Ao ler isso, óbviamente que deve passar pelas mentes dos leitores “Ora, mas é assim que acontece”. E já de pronto respondo: “sim”. Mas estamos falando de um mundo que é o que deveria ser? Onde as pessoas agem umas com as outras como deveriam? Devemos então legitimar idiotices passionais, pois é assim que as pessoas fazem? Ou será que nem sempre o que as pessoas fazem tem algo positivo por consequência ou finalidade?
Então, nesse ponto, nossa consideração deve ser crítica. Ou preferem a aceitação passiva de um mundo imediatista e utilitarista?
Claro que isso será uma grande dificuldade se você for um tipo fetichista sadomasoquista, que domina seu parceiro ou sua parceira, ou mesmo se você for do tipo que gosta de ser dominado e agredido. Ou, ainda, simplesmente alguém que tem em mente que suas maiores diversões se deram no total exagero e abandono. Talvez, caiba pensar, vocês não sejam o tipo ideal de vida saudável (ou seja, no qual há uma finalidade na vida: a de vivermos como humanos, com humanos. Portanto, nada que façam é digno de regra de conduta.
Segundo Kant, o juízo de gosto depende do sentimento de agrado ou desagrado, assim não pode ser um juízo cognitivo (que define o que é conhecido). A sua base de determinação só pode ser subjetiva. Kant contrasta o prazer puro desinteressado que está presente no juízo de gosto com a espécie de prazer que sentimos no que é agradável para nós (o qual está associado com a gratificação pessoal ou diversão) e a espécie de prazer que sentimos no que é bom.
Estes dois tipos de prazer estão relacionados com alguma espécie de interesse (no primeiro caso a gratificação sensorial que partilhamos com os animais; no segundo caso o nosso interesse racional no que tem valor objetivo). Apenas o nosso interesse pela beleza é um prazer desinteressado e livre. Daqui Kant parte para a definição de belo como “um objecto de prazer independente de qualquer interesse”.
Veja, se acompanhar esse raciocínio, verá que Kant relaciona a diversão com o tipo de juizo no que é agradável para nós, próprio do que é BOM. Não há, um reflexo na moralidade por parte dessa formulação, mas certamente se você conhece o mínimo da ética kantiana sabe que os costumes que envolvem as relações, são regradas pela razão. Ele desenvolve o “imperativo categórico” nesse sentido. E se você não conhece, deve ficar claro que esse tipo de prazer é um JUIZO. Não um impulso.
Ou seja, enquanto esta noção de puro e livre prazer, cuja base de determinação é inteiramente subjetiva nos leve a propor que o juízo estético é meramente uma matéria de preferência privada (um sentimento subjetivo, portanto) é legítima quando surge de um juizo do que é belo universalmente.
Em Aristóteles as paixões são uma tendência natural do homem, no entanto, agindo unicamente por esse impulso a tendência é de o homem cometer atos imprudentes, tendem a ser inconsequentes e injustos. As paixões são volúveis, mudam seu objetivo a todo instante. O homem que age somente pelos impulsos das paixões é igualmente volúvel, mudando de foco e jamais alcança um objetivo, são antes escravos das paixões e não seus senhores. Já que as ações do homem moldam seu caráter, cabe que o homem que queira ser justo tenha a justiça em vista (o Bem) de suas ações. Por isso mesmo, as paixões são moderadas (mas não anuladas) pela razão. Eis aí o princípio do meio termo para a prática das virtudes.
E para a diversão em particular, eu já desenvolvi parte do esclarecimento a respeito na página Eutrapelia.
Espero saber de vocês se há coerência ou não nesses pontos que pensei serem críticos.
Aguardo
Abraços