Eu ME divirto!

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Vou primeiro começar com trechos de duas conversas que tive recentemente, o resto do artigo segue em torno disso (mas se você quiser pular essa parte, pode rolar a página, embora ilustrativa, deve acrescentar algum entendimento aos pontos que eu levantei lá no texto):

EU: – “Se a diversão for o que quer que as pessoas quiserem, então podemos legitimar casos escabrosos como os que eu apontei de exemplo, como divertidos, certo? Afinal, diversão seria o que quisessemos e eles fizeram o que quiseram.” – eu disse.

ELE: – “e fato não é isso? para mim divertido é o que me tras euforia de diversão.” – com essas palavras dele, fiquei imaginando o quão longe essa conversa ia chegar.

EU: – “Então, se é isso, os caras que queimaram índios ou moradores de rua e agridem pessoas na rua, estão legitimados?” – e prossegui: “Então não é crime, é divertido e aceitável.”

ELE: – “não é aceitável para a sociedade. mas foi divertido para eles”

EU: – “(nao quero defender os caras, que fique claro)”  – não, claro que não queria. Mas escorregou.

ELE: – “Assim temos outro problema. Então eles fizeram um BEM e a sociedade está sendo contra.”

EU: – “Que bem para si seria esse que eles podem exercitar agredindo e machucando um outro?”

ELE: – “seria um pensamento egoísta de quem faz, mas acho que é assim mesmo” – foi a resposta dele.. Já estávamos desenhando melhor os parâmetros dessa diversão alienada.

EU: – “então, na sua concepção, o melhor do mundo é cada um fazer o que quer, como eles, agindo só pela satisfação do impulso?” – vejam que eu só levei adiante a implicação que já estava clara no que ele me disse.

EU: – “Pare e pense se isso for uma regra geral. Como será com todos agindo assim?”

ELE: – “to pensando em casos isolados, o mundo todo faz isso?” – essa foi uma tentativa furada de escapar da implicação óbvia. E completou: “mas o que to questionando é: o divertido para uns, não é divertido para outros, aplicar como regra geral não dá”

EU: – “Eles fizeram em nome da diversão. Estamos falando então que se eles fizeram isso e deram o nome de divesão, TODOS que fizerem isso estarão se divertindo. Ou não?”

ELE: – “se a pessoa se sentiu realizada, eufórica e achou que se divertiu, foi diversão para essa pessoa. agora, se o que ele fez é aceitável ou não pela sociedade, é outra história”

Desta conversa, vou deixar até esse ponto. Já vai ser o suficiente para o que está por vir. Por isso vou mostrar qual foi a outra conversa que tive, com uma outra pessoa, mas que girou em torno do mesmo ponto, mas por um outro viés (a meu ver, o pior). A psicologização…:

–************–

ELE: – “eu concordo co o que voce escreveu, a diversão não desculpa as barbaridades e aida não tras em si mesma alguma educação, mas ela pode ser usada como ferramenta pra isso sim” – e assim ele começou.

EU: – “Primeiro, diversão não é ferramenta, é meio para um objetivo.”

EU: – “Que pessoas DIGAM que estão se divertindo quando estão sendo idiotas de modo algum legitima o que fazem como diversão.”

ELE: – “sim. eu usei "ferramenta" nesse sentido ai, to meio por fora”

EU: – “A diversão surge como necessidade para a completude do ser do homem, na medida em que é própria para o descanso da alma (em Aristóteles). Logo, tem um objetivo e como está inserida no ser do homem se faz necessário saber o que o homem é e também um conhecimendo objetivo (determinado) sobre a diversão inserida nesse contexto.”

EU: – “Além do mais, te pergunto o seguinte: "diversão acontece sozinho?"” – me precipitei e formulei errado, eu quis dizer “quando se está sozinho”, mas ele entendeu e seguimos a conversa.

ELE: – “não”

EU: – “Então o caráter social da diversão está implicado, uma vez que você só pode se divertir com outros. Então está inserida no âmbito da ética.”

ELE: – “é claro que a diversão não acontesse sozinha, do nada, mas também podemos nos divertir com fenomenos da mente, não?” – aqui eu me retorci…e ele completou: “uma lembrança nostalgica sei lá. lembrança de algo que tenha havido com outros. ou com nós mesmos”

- “será que não podemos nos divertir com pensamentos?” – pergunta pertinente e muito inteligente a dele. “ou quando lemos um livro, ou pensamos num poema?”

EU: – “Acontece que em primeiro lugar, o problema é legitimar a violência a outra pessoa como forma de diversão. Isso é o mesmo que tentar validar qualquer uso de um outro ser humano como ferramenta. Ou seja, tratar um outro ser humano, subordinado às mesmas condições naturais que a gente, logo também sob as mesmas determinações, como se fosse de nosso uso.”

- “Ler é divertido, mas só porque se está criando um universo no qual você se insere, imitando relações, portanto.” – respondi

E por aí foi…

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Parece bastante preciso dizer que estamos favorecendo a nós mesmos quando nos pomos a fazer algo divertido. Nos alegrarmos, mostram os cientistas, é essencial para uma boa vida. Calcularam fluxo de hormônios, enzimas, etc que produzimos em estado de alegria; então o mundo aceita que seja saudável. Só por isso. E nada mais do que isso.

O único problema de o Ministério da Saúde ser o único suporte para o incentivo à necessidade de diversão na vida, é que a conclusão mais comum das pessoas é: “se você se sentir bem, faça!” (psicologia em 90 minutos)

Se levantarmos a primeira pergunta “então o que garante que sua diversão não ultrapasse limites, se o único limite é você mesmo?”, as tentativas em explicar o quanto esse “sentir-se bem” deve dominar suas ações beira o autismo.

Agora é o momento no qual eu me explico na escolha do termo “autismo”, que não é por preconceito, de modo que eu não atraia a ira de quem lê sem entender o que estaria explícito depois. Por definição, o autismo é, segundo o ABC da Saúde, “uma desordem na qual uma criança jovem não pode desenvolver relações sociais normais, se comporta de modo compulsivo e ritualista, e geralmente não desenvolve inteligência normal. joselito_maiorO autismo é uma patologia diferente do retardo mental ou da lesão cerebral, embora algumas crianças com autismo também tenham essas doenças.” E sobre o próprio autista, a mesma fonte tem: “Uma criança autista prefere estar só, não forma relações pessoais íntimas, não abraça, evita contato de olho, resiste às mudanças, é excessivamente presa a objetos familiares e repete continuamente certos atos e rituais.” Outras fontes médicas irão reforçar esses mesmos pontos, caso se interesse por pesquisar.

Ou seja, temos uma pessoa compulsiva, que faz as mesmas coisas que lhe são familiar, que se fecha em seu mundo particular, cujas normas são só suas e são as únicas que ela entende. As tentativas de se explicar o que é esse “agir pelo que lhe faz se sentir bem” defendem que as pessoas devem cultivar sempre suas próprias normas, conforme seu gosto e conforme o que lhe aprouver. São autistas.

Alguém explique a esse povo que isso é autismo!

O que essas pessoas não percebem é que criamos problemas tanto de ordem ética, quanto de ordem epistemológica quando afirmamos que nos divertimos meramente pelos nossos gostos ou pelas nossas normas.

Se fosse simplesmente por nosso gosto que tomássemos nossas decisões, nunca levaríamos em consideração que estamos lidando com um outro, o outro seria só mais um obstáculo ou uma ferramenta para atendermos nossos impulsos. Tanto pior, em uma súbita mudança de gosto (pois é assim que acontece), poderíamos nos descobrir não mais desejosos daquele objeto e então querermos um outro objeto e aí, mais uma vez, usar a outra pessoa como ferramenta ou vê-la como obstáculo para esse sucesso. E assim sucessivamente, em uma troca de estatuto do outro, entre ferramenta e obstáculo, ou até como o objeto desejado, então descartado. Tudo a nosso gosto.

–************–

Ao ler isso, óbviamente que deve passar pelas mentes dos leitores “Ora, mas é assim que acontece”. E já de pronto respondo: “sim”. Mas estamos falando de um mundo que é o que deveria ser? Onde as pessoas agem umas com as outras como deveriam? Devemos então legitimar idiotices passionais, pois é assim que as pessoas fazem? Ou será que nem sempre o que as pessoas fazem tem algo positivo por consequência ou finalidade?

Então, nesse ponto, nossa consideração deve ser crítica. Ou preferem a aceitação passiva de um mundo imediatista e utilitarista?

Claro que isso será uma grande dificuldade se você for um tipo fetichista sadomasoquista, que domina seu parceiro ou sua parceira, ou mesmo se você for do tipo que gosta de ser dominado e agredido. Ou, ainda, simplesmente alguém que tem em mente que suas maiores diversões se deram no total exagero e abandono. Talvez, caiba pensar, vocês não sejam o tipo ideal de vida saudável (ou seja, no qual há uma finalidade na vida: a de vivermos como humanos, com humanos. Portanto, nada que façam é digno de regra de conduta.

Segundo Kant, o juízo de gosto depende do sentimento de agrado ou desagrado, assim não pode ser um juízo cognitivo (que define o que é conhecido). A sua base de determinação só pode ser subjetiva. Kant contrasta o prazer puro desinteressado que está presente no juízo de gosto com a espécie de prazer que sentimos no que é agradável para nós (o qual está associado com a gratificação pessoal ou diversão) e a espécie de prazer que sentimos no que é bom.

Estes dois tipos de prazer estão relacionados com alguma espécie de interesse (no primeiro caso a gratificação sensorial que partilhamos com os animais; no segundo caso o nosso interesse racional no que tem valor objetivo). Apenas o nosso interesse pela beleza é um prazer desinteressado e livre. Daqui Kant parte para a definição de belo como “um objecto de prazer independente de qualquer interesse”.

Veja, se acompanhar esse raciocínio, verá que Kant relaciona a diversão com o tipo de juizo no que é agradável para nós, próprio do que é BOM. Não há, um reflexo na moralidade por parte dessa formulação, mas certamente se você conhece o mínimo da ética kantiana sabe que os costumes que envolvem as relações, são regradas pela razão. Ele desenvolve o “imperativo categórico” nesse sentido. E se você não conhece, deve ficar claro que esse tipo de prazer é um JUIZO. Não um impulso.

Ou seja, enquanto esta noção de puro e livre prazer, cuja base de determinação é inteiramente subjetiva nos leve a propor que o juízo estético é meramente uma matéria de preferência privada (um sentimento subjetivo, portanto) é legítima quando surge de um juizo do que é belo universalmente.

Em Aristóteles as paixões são uma tendência natural do homem, no entanto, agindo unicamente por esse impulso a tendência é de o homem cometer atos imprudentes, tendem a ser inconsequentes e injustos. As paixões são volúveis, mudam seu objetivo a todo instante. O homem que age somente pelos impulsos das paixões é igualmente volúvel, mudando de foco e jamais alcança um objetivo, são antes escravos das paixões e não seus senhores. Já que as ações do homem moldam seu caráter, cabe que o homem que queira ser justo tenha a justiça em vista (o Bem) de suas ações. Por isso mesmo, as paixões são moderadas (mas não anuladas) pela razão. Eis aí o princípio do meio termo para a prática das virtudes.

E para a diversão em particular, eu já desenvolvi parte do esclarecimento a respeito na página Eutrapelia.

Espero saber de vocês se há coerência ou não nesses pontos que pensei serem críticos.

Aguardo

Abraços

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Publicado por Fabiano Sampaio   @   24 May 2009

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