Quando você pensa que as coisas não podem ficar pior e que já há um esforço positivo no sentido de erradicar problemas na educação, eis que surgem idéias inovadoras que, como dizem os publicitários, criam um "novo conceito" em idiotices pedagógicas e linguísticas.
Como acadêmico, sempre tive esperança de que a FAPESP ( Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) iria se preocupar com os critérios de escolha para os diversos projetos nos quais deveria investir NOSSO dinheiro com pesquisas que de fato nos fizessem crer que há mesmo uma seriedade nesse interesse.
Tenho noção de que não é fácil explicar para alguém como pesquisas sobre Ética, Ontologia, Metafísica, Existencialismo e afins da Filosofia, são de fato relevantes quando não põem comida no prato do povo, não dá emprego e não são propostas de atividades de caráter “lúdico” (com muitas aspas por todas as ressalvas que sabem que tenho com o uso desse termo. Não vão me fazer explicar ironia, vão?) para crianças ou jovens .
Pois, explicando é sempre possível justificar essas pesquisas.
Mas a FAPESP anda avacalhando MESMO!
Em um artigo publicado no próprio site de notícias da instituição, escrito por Jussara Mangini (clique no nome da autora para abrir a página do artigo), há a divulgação do apoio a um projeto chamado Leitura Facilitada.
Lindo nome. Soa promissor e altruista. Parece que a idéia é uma preocupação com a qualidade de leitura e que esse projeto visa ajudar jovens e adultos com dificuldades de compreensão e domínio de seu próprio idioma.
RÁ! Pegadinha do Mallandro!
Não é nada disso!! Cito abaixo um trecho do artigo:
"O objetivo da simplificação linguística é melhorar a capacidade de um texto ser lido para poder ser compreendido. Segundo Sandra, especialistas em psicolinguística e linguística dizem que sentenças longas, com vários níveis de subordinação, cláusulas embutidas (relativas), sentenças na voz passiva, uso da ordem não canônica para os componentes de uma sentença, além do uso de palavras de baixa frequência, aumentam a complexidade de um texto."
Pois! Malditos esses escritores que enfeitam e empolam o texto com palavras difíceis! Oras! Como assim não pensam nos milhares de analfabetos, deficientes e afins, menos qualificados intelectualmente, que não irão entender seus textos? O que leva esses pesquisadores a serem pessoas tão ruins que não adaptam sua linguagem para o cotidiano de 60 vocábulos de um adolescente médio???
Leiam o artigo original do texto, de modo a não pensarem que o que vou dizer agora é mera birra. Mas vamos analisar só alguns pontos do problema como um todo:
1) Ao se considerar que o problema está no texto, desqualifica-se que os autores tratam de assuntos delicados e complexos que, portanto, PRECISAM ser desenvolvidos adequadamente.
O que significa desenvolver adequadamente?
Significa explicar do que se trata o que estão dizendo, porque é dessa maneira (o que torna essa idéia como ela é definida) e quais as implicações disso?
2) Desconsidera-se TOTALMENTE que jovens analfabetos funcionais e pessoas com problemas de desenvolvimento cognitivo precisam de um conteúdo adequado para que, dados os seus limites, eventualmente POSSAM entender a complexidade envolvida naquele assunto, o qual seu cotidiano não basta para ilustrar.
3) Ao propor que o conteúdo seja adaptado meramente para maior aceitação na condição desprivilegiada do leitor, faz parecer que o jovem analfabeto já tem tudo o que é necessário em seu repertório para armazenar informações e refletir o assunto tratado. Ao invés de se ocupar para que eles adquiram QUALITATIVAMENTE essa capacidade de apreender as coisas.
Investiram 1 milhão de reais nesse projeto. Por que não se preocupam em EDUCAR os analfabetos ao invés de adequar conteúdo ao analfabetismo??
Sabe o que esses pontos todos que eu tratei têm como implicação? A criação de uma categoria antropológica com linguagem própria, que não precisa ter correspondência com o real conhecimento do objeto de estudo. Cria um grupo de idiotas que têm um projeto para garantir que seu estado de imbecilidade seja garantido, afinal esse sujeito se sente descriminado por não entender certos assuntos.
ESTUDE! LEIA! APRENDA A ESCREVER! Sessenta palavras no vocabulário não vão ajudar ninguém mesmo.
Fabiano,
Su professora e, antes de começar o ano propriamente dito, procuro analisar o conhecimento da minha sala e adequar minha aula ao maior índice encontrado. A maior porcentagem dos meu alunos tem qual nível?? Se for um nível melhor, direciono minha aula a eles – sem deixar de apoiar aqueles que têm mais dificuldade. Se o nível está baixo, busco pelo menos dois patamares acima e forço minha turma a crescer e a melhorar (adquirir vocabulário e depois conhecer as regras do uso do mesmo).
MAS… parece que a ordem agora é: nivele-se por baixo. Faça o mais simples e homem-das-cavernas possível e vá em frente.
Isso dará aos fracos a falsa impressão de domínio de conteúdo e acabará com qualquer vontade de crescimento. E isso dará aos mais fortes .?.?. (não consegui pensar em nada além de tédio e vontade de fugir da escola).
Não tinha levado esse meu raciocínio para a área literária e, ao ler seu artigo, fiquei com a seguinte sensação: a coisa está mais preta do que eu supunha – e com aval e patrocínio do governo.
Sinto pelos leitores que estamos criando. Correndo contra a corrente do conhecimento, estaremos formando o que??
Abraço,
Márcia
Cara Marcia,
Sua preocupação e conclusão em relação à qual abordagem tomar com a turma claramente favorece uma noção de que não se pode estabelecer os limites de aprendizado pelo próprio sujeito, uma vez que suas limitações farão com que ele somente reconstrua os mesmos modelos de significantes só que de maneiras diferentes. Isso não é melhora isso é mudança. Os mesmos problemas e limitações continuam presentes em todos os níveis dessa pedagogia construtivista. E você, como educadora, tem total consciência disto.
Eu também dou aulas, no SENAC, e fico preocupado quando meus alunos se agitam e se desesperam quando eu faço questão de abordar esses problemas de interpretação de texto, apreensão do sentido do texto e análise crítica. Mesmo em aulas de informática eu faço isso, pois lemos textos sobre vários assuntos de tecnologia (textos bons e textos ruins, apontando as diferenças, sabendo o que faltou e indo procurar outras fontes).
Agradeço muitissimo sua participação e desejo que continue seu esforço, pois para nós a importância não é quantidade, mas qualidade. Talvez os demais simplesmente não queiram tanto para si mesmos.
Espero que volte mais vezes.
Beijos
Diego, meu caro
estamos todos cada vez mais desapontados. É esse tipo de projeto que nos faz pensar que se queremos algo bem feito temos de fazer nós mesmos. Outro dia mesmo eu falava ao Gabriel que a razão de eu me esforçar para ganhar dindheiro é a construção de uma Fundação só nossa! Universidade, escola, biblioteca, editora e tudo junto para montarmos nossos projetos de melhorar o mundo, e não só MUDÁ-LO.
Impressionante como o próprio Governo seja responsável pela retrocesso intelectual dessa maneira.
Abraços
Os alunos do ensino médio já escrevem como pessoas em estágio inicial de alfabetização. Já não conseguem articular raciocínios logicamente. Basicamente os únicos dois modos de incremetar tal capacidade são a escrita e a leitura. Se a leitura, ao invés de ampliar as capacidades, fomentar a estultice, como digo em aula, em breve vão grunhir.
23:04
Este projeto da FAPESP consegue ser tão imbecil quanto o da Secretária da Educação de São Paulo em não criar salas especiais para estudantes superdotados, afirmando que esta atitude geraria preconceito, segregação e blá blá blá.
Não estimular seus estudantes acima da média é a coisa mais imbecil que um país pode fazer, considerando que estes alunos serão os responsáveis pelo desenvolvimento desta mesma nação.
Reduzir a complexidade de textos só prova mais uma vez que a educação no Brasil vive de remendos, ao invés de se fazer a tão necessária reforma na educação, é preferível simplificar e “idiotizar” o conteúdo, para facilitar sua compreensão.
É impressionante ver como estamos chegando cada vez mais perto do mundo de 1984 do George Orwell.