A autora e suas obras

    O Flávio (@flaviomorgen), do “Caffeine Cult” levantou pontos muito importantes ao colocar a produção cultural na internet como algo que encontra suas exigências de qualidade na medida em que se tem, diferentemente do que se vê nas instituições de ensino, uma avaliação não só formal do conteúdo, mas também do percurso tomado pelo autor do texto lido.
     Mas o ocorrido com a Juliana Sardinha e seu blog
"Dicas Blogger", e aparente benefício do usurpador de seu conteúdo, por repetidas vezes, deveria nos alarmar ainda mais do que o que já tem ocorrido. Tanto que o dito cujo está sendo pesadamente criticado, embora continue usufruindo de ganhos financeiros não pelo conteúdo própriamente dito, mas pelas visitas garantidas por estes que, por fim, levam os incautos e curiosos a aproveitar a visita em seu blog para fazer suas compras em meio às leituras.
    Só a título de curiosidade, eu nem conhecço a Juliana Sardinha ou lia seu blog. Mas o caso gerou tamanha repercussão que até eu soube e, dada a seriedade do assunto,  não pude me abster.

    No que diz respeito à produção cultural na internet há tanto as exigências de um público que prima pela qualidade e idoneidade do que lê, em conteúdo, sua forma e coerência, quanto os que não estão nem aí,  que querem o mínimo de esforço ao ler um artigo, quem dirá de comentá-lo ou saber usá-lo como fonte de pesquisa. Isso porque justamente a cultura do "copia e cola" é a norma vigente. Cultura esta que é instigada pelas universidades, como o Flávio mencionou, que não cumprem com o mínimo de exigência na formação dos alunos no que diz respeito à produção intelectual e que têm parcas políticas de avaliação da produção do aluno, mas que também encontra seu cerne na má formação moral, de um modo geral, visto que há uma total desconsideração em relação ao que não está fisicamente ou tecnológicamente impedido de ser executado.

    De modo que, no ciberespaço, técnicamente podemos tudo.
  
Dizem as estatísticas que nunca se leu tanto e em tanta diversidade como nos dias de hoje, graças à internet.
    Mas já pararam para se perguntar se algum analfabeto aprendeu a ler por causa da internet? Algum preguiçoso se tornou um ávido leitor por causa da internet?
    A internet é uma ferramenta. De modo que a capacidade do usuário é que determina sua funcionalidade. Ela não dá dons, nunca antes despertados, ao sujeito. Já tive essa conversa antes por conta de um caso ocorrido com o Gabriel Ferreira (@
G_Ferreira), do blog “Inter-Esse” (e meu padrinho de crisma ;) ).

     Enquanto conversava com o Flávio (antes de terminar de ler este artigo dele e perceber que ele apontou o mesmo), o que apontei foi justamente que essa situação traz à tona um problema muitíssimo sério, que o ocorrido não é meramente uma questão de "impedir uma mecânica de criatividade, que é a condição própria da internet" enquanto o sujeito pega pedaços de tudo para criar algo supostamente seu, mas é antes uma questão de demonstração própria de quem não sabe o que significa PRODUÇÃO INTELECTUAL.
    O autor é a causa eficiente da obra composta, e o processo intelectual pelo qual perpassa até chegar ao resultado (e.g.: artigo, ensaio, livro, etc) é algo que demanda não só tempo, mas a sua capacidade intelectual. Não é meramente um trabalho braçal.
     Um copista não é o autor da obra.
 
     Então, neste sentido, já é até um problema de caráter do ladrão, que além de ser burro (em relação a sequer ter produzido o conteúdo) ainda faz uso do que é produzido como se fosse seu, em um falso sucesso de competência, como se lucrar com o que não é seu fosse um ganho em relação a um desafio e merecedor de glória.
    Quem se manifesta contra autoria quer institucionalizar a burrice.
    Talvez quem problematize esse "trabalho intelectual" (visto que pretendem atribuir uma mera influência das fontes, como se quem faz uso do conteúdo de uma maneira diferente é, automaticamente, autor) parece querer propor que haverá sempre a subjetividade encobrindo a ação de plágio. Mas este existe, bem definido, portanto é objetivo.

Citando um trecho do que o Flávio escreveu no “Caffeine Cult”:

“É um argumento cara-de-pau e muito comum, presente desde discussões sobre pirataria até em ladrõezinhos baratos de conteúdo, que dizem que não roubam algo, pois o conceito de roubo é que, quando subtraio algo de você, você não pode usá-lo, enquanto o que ele faz é uma espécie de comunismo cibernético – eu uso, você usa, ele usa e todos vivemos felizes e irresponsáveis.”

  Caro Flávio, é um argumento falacioso, isso sim. Então, não somente cara-de-pau, mas estúpido de quem se apoia nele, uma vez que podemos falar de roubo neste sentido em se tratando de objetos materiais, enquanto que ao falar de obra intelectual há sim o fator de "causa eficiente", a saber: o autor. Enquanto que o ladrão é só um usurpador que sequer é capaz de traçar o mesmo caminho, intelectualmente falando, para chegar àquela forma que depende, sobretudo, de uma investigação adequada sobre o tema tratado e de se apontar isso. 
    Copiar não torna o copista em autor da obra. Isso não é novidade. Mesmo se a legislação não der o apoio devido.

Citando outro trecho:

“Aí surgem duas perguntas: 1) você, de fato, pode praticar essa maneira virtualizada de castrismo, mas e o autor original? Não merece nem um link, nem seu nome citado, nem um maldito "muito obrigado"? Roubar um texto parece não ser tão "roubo" assim, mas e roubar uma autoria? Aí não é mais um revolucionário ato de socialização da cultura, é apenas falta de colhões em bom estado de conservação; 2) a patifaria só serviria como desculpa esfarrapada caso considerássemos a escusa de que não há mesmo dinheiro envolvido; e quando o caboclo rouba e fatura em cima? Cadê a inocente e saudável "socialização" do meio?”

    Em relação ao seu primeiro ponto, Flávio, é bem verdade que nada impede que o sujeito redirecione conteúdo a fim de partilhar a informação. Há até ferramentas pra isso. Desde que (e você apontou isso muito bem) haja o devido crédito. Ou seja, que seja apontado o autor do trabalho intelectual envolvido. O que parece ser o maior problema é reconhecer o limite nada tênue entre isso e a famosa “kibada” (vide Tabet e seu Kibeloco que gerou o verbo).
    Houve quem tentasse suavizar a situação, para a própria Juliana, ao dizer a ela que isso era um efeito colateral por ser bem sucedida. Nesse caso, o que essas pessoas não percebem é que isso é um raciocínio nesses moldes: "aceite ser injustiçada, porque a vida não é justa".
    Tanto pior, pois não seria só uma aceitação de um ato injusto, como ainda a tentativa de tornar o tal ato como uma consequência natural do exercício de uma qualidade própria da Juliana: sua capacidade intelectual e de produção de conteúdo relevante.
    Ela pode até parar de escrever no blog, mas não irá deixar de ser autora de outros textos.
      Já o ladrão de conteúdo…

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Selo Eutrapelia
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Posted by Fabiano Sampaio   @   12 January 2010

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